Entrevista a António Calçada de Sá

António Calçada de Sá é sócio-fundador e membro do Conselho da Diáspora desde a sua constituição. Assumiu aí a missão de promover Portugal e a sua imagem. A trabalhar hoje no país vizinho, a sua carreira profissional já o levou a conhecer a vida em países tão díspares como a Itália, o Peru, o Brasil e a Argentina.

Onde nasceu, cresceu, estudou e que razões determinaram a sua saída para o estrangeiro? Nasci e cresci em Caminha, estudei em Viana do Castelo e licenciei-me em Engenharia Química (ramo de Tecnologia e Indústria) no Instituto Superior Técnico (IST) em Lisboa. Posteriormente realizei um MBA no IE Business School em Madrid e no IMD em Lausanne (Suiça). As minhas saídas para o estrangeiro – para Espanha e Itália no início da minha etapa laboral na Exxon Corporation e mais tarde com a Repsol na Espanha, Brasil e Argentina – estiveram essencialmente relacionadas com oportunidades que surgiram muito cedo na minha carreira nas multinacionais onde trabalhei e onde trabalho, com o meu perfil profissional, talvez a flexibilidade e o conhecimento de cinco idiomas e muito especialmente com a minha firme disposição, vontade e disponibilidade de conhecer novos mundos, novos horizontes pessoais e profissionais e também novas culturas.

Que imagem de Portugal têm os cidadãos dos países por onde passou? Globalmente diria que “a imagem é positiva mas também é escassa”. Ela é positiva pois somos conhecidos como um país de gente séria, trabalhadora e estável e com uma cultura histórica de serviço muito relacionada com o turismo. Por outro lado existe uma imagem pouco actualizada sobre o Portugal moderno,com empresas, empresários e gestores de topo tanto na na Europa como no mundo.

Afirmou uma vez que a “definição de ‘emigrante’ está um bocadinho ‘démodé”. Porquê? A definição está “demodée” de facto porque o “emigrante português” já não é o mesmo que viajou com muita determinação, esforço e coragem para o Brasil, América Latina ou Europa nas duas pós-guerras. Nessa altura as condições eram tremendamente difíceis, eram “extremas”. Hoje em dia temos “emigrantes profissionais” muito mais integrados e muito mais preparados nos vários países. Temos operários altamente qualificados, quadros técnicos excelentes e gestores de topo liderando multinacionais de dimensão mundial.

A Espanha é um dos maiores destinos das nossas exportações. Que imagem têm os nossos vizinhos dos produtos e serviços com a “marca Portugal”? Que podemos e devemos fazer para que as nossas quotas de mercado cresçam nesse destino? A imagem de Portugal em Espanha é boa a todos os níveis e o espaço económico e social ibérico é hoje uma realidade. É uma realidade que pode e deve ser melhorada, sem dúvida, mas não vejo que existam tensões ou prejuízos importantes desse ponto de vista. A imagem dos nossos produtos “marca Portugal” é boa e a nível dos serviços penso que é até excelente.

Que podemos fazer para aumentar as nossas quotas de exportação? Depende certamente do sector em questão já que nem todos tem a mesma problemática mas para que as nossas quotas cresçam em termos objetivos temos que trabalhar e investir um pouco mais e talvez um pouco melhor na relação, divulgação e “networking” positivo dos nossos produtos e serviços diretamente com as empresas e também com o apoio das instituições que existem para esse efeito. Penso que é uma “agenda de médio prazo” e uma “agenda pensada” e não uma questão “spot”. Pessoalmente vejo certos problemas mas também muitas oportunidades na questão da “dimensão” (é preciso ter tamanho ou dimensão para estar presente num mercado 4 vezes maior), na questão das organizações (é preciso entender organizativamente o espaço ibérico e ter organizações desenhadas e preparadas para o efeito) e finalmente é preciso gerar projetos ambiciosos onde empresas portuguesas e espanholas conjuntamente possam e queiram viajar juntas pela América Latina, Africa ou Brasil.

Quais entende serem os principais entraves ao urgente crescimento do investimento directo estrangeiro em Portugal? Temos entraves mas também temos oportunidades porque: Existe muita concorrência noutros países ou regiões económicas. E esta concorrência é sempre mais feroz num cenário de crise ou pós crise. Falta-nos uma “agenda clara” : Que queremos como investimento? Em que sectores ? Com que modelo e parceiros? Falta uma “proposta país” que assegure “estabilidade” no tempo. Exemplos: as dimensões contratuaais, laborais, fiscais,… Falta dinamizar e articular essa proposta a nível integrado: empresas, associações empresariais, líderes de opinião, instituições e Governo. Finalmente falta um “road show” muito objectivo, com missão muito clara e objectivos muito ambiciosos.

Onde se vê a passar os seus anos de reforma? Boa pergunta! Ainda falta muito e sinceramente não sei, mas posso desde já assegurar que onde quer que eu esteja Portugal estará sempre muito perto.

 

Por Público, Setembro 2016

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