Entrevista a Filipe de Botton

Os portugueses tendem a esquecer-se de trabalhar em conjunto, diz Filipe de Botton, para quem a rede criada pelo Conselho da Diáspora quebrou essa tendência. “Tornámos o círculo vicioso num círculo virtuoso.”

Que balanço que faz das iniciativas do Conselho da Diáspora? A ideia era pôr os portugueses em contacto e, sobretudo, trazer de volta os portugueses de prestígio que vingaram nos seus países de acolhimento, chamá-los num momento difícil para a economia portuguesa, talvez um dos mais complicados. E todos disseram ‘presente’, todos se prontificaram a ajudar Portugal. É um motivo de orgulho ter conseguido, nestes três anos, criar uma rede em quatro pilares relevantes: economia e empresas, artes, ciências e cidadania, criar uma ‘network’ que colabora com o país.

De que forma? Em estudos e iniciativas e também a ajudar de forma discreta os membros do Governo ou da Presidência em visitas institucionais aos países onde estão. Até para reuniões em que se pode ter acesso a pessoas que de outra forma seria impossível. É um trabalho complementar, articulado com a diplomacia, os embaixadores. Trouxemos valor acrescentado a Portugal.

A rede tem crescido em número de conselheiros e áreas de influência. Qual foi a grande conquista no último ano? A consolidação. Há três anos era um projecto, hoje ganhou vida própria, uma credibilidade que faz com que a maioria dos portugueses que está fora de Portugal queira participar. Passámos de uma actuação de ‘puxar’ para quase ‘empurrar’. Valeu a pena criar essa rede, de uma qualidade inestimável em várias áreas, que era algo que não existia. Os portugueses têm de se articular em conjunto. E o Conselho conseguiu quebrar esse círculo vicioso e torná-lo num círculo virtuoso.

Um tema-chave no primeiro encontro foi a imagem de Portugal lá fora. O que mudou? Independentemente de qualquer questão política, Portugal é hoje um país muito mais afirmado do ponto de vista internacional, um país que se destacou. Há uma afirmação económica de controlo das suas contas públicas que foi extremamente importante. Houve intervenções externas, como do Banco Central Europeu, que ajudaram, mas todos os portugueses fizeram um trabalho notável a ajudar o país. Hoje Portugal é visto de forma muito credível e responsabilizada e muito mais tranquilizante do que há três anos.

O que ainda falta trabalhar? Tudo aquilo em que se tem vindo a trabalhar nos últimos anos tem de continuar a ser trabalhado. É o chamado ‘no end game’, ou seja, independentemente de todos os esforços feitos, tem de se continuar com o trabalho de reorganização, de contenção de despesa pública, de repensar a função do Estado nas várias áreas. Temos um montante fixo de receitas e temos de definir como o vamos alocar, já que não podemos continuar a endividar- nos. Agora temos de pensar o país de forma diferente.

A recente situação, de alguma indefinição política no país, foi tema de discussão em fóruns da diáspora, até para perceber o impacto que poderia ter para a imagem de Portugal lá fora? Nem nos passou pela cabeça. Uma das regras de ouro da diáspora é passar completamente ao lado da discussão política e de o apoio ser a Portugal, independentemente de quem for governo. Qualquer pessoa que está a governar o país está a fazê-lo de forma legítima.

por Diário Económico, 21 Dezembro 2015

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