Manuela Ferro em entrevista ao Público

Manuela Ferro trabalha no Banco Mundial desde 1994 onde é, actualmente, vice-presidente da Política de Operações. Em conversa com o PÚBLICO fala do combate à desigualdade, da erradicação da pobreza e da importância da educação e saúde para a concretização desses objectivos.

Antes de sair de Portugal, em 1989, Manuela Ferro licenciou-se em Engenharia Agronómica. Pelo caminho, interessou-se pela Economia e decidiu ir para os Estados Unidos, onde fez o doutoramento nessa área. Cinco anos após a chegada a esse país, entrou para o Banco Mundial. Durante o seu percurso no Banco, passou pelo Médio Oriente, África e América Latina. Actualmente é a vice-presidente da Política de Operações. Além disso, é uma dos 95 membros do Conselho da Diáspora Portuguesa, organização que tem por objectivo aproximar os portugueses emigrados e promover o seu trabalho fora do país.

Segundo o World Inequality Report, a desigualdade entre ricos e pobres é muito grande em países da África Subsariana, Médio Oriente, no Brasil e Estados Unidos. O que é que está a falhar? A desigualdade é muito diferente da pobreza. Mesmo em países que conseguem diminuir muito a pobreza, o que acontece, sobretudo nas fases iniciais de desenvolvimento, é o aumento da desigualdade. Todos sobem, mas os mais ricos sobem mais do que os mais pobres. Portanto, a desigualdade aumenta. O nosso trabalho concentra-se muito na redução da pobreza. Mas há muito trabalho que nos mostra que quando a desigualdade é muito grande, isso se transforma num factor de desestabilização das sociedades.

E na Europa? Esses factores de desigualdade são menos fortes. Temos um sistema mais social, com impostos muito mais altos. Mais redistribuição, com um bocadinho menos crescimento, mas é uma escolha da sociedade quando vota. Na Europa em geral há uma preferência dos eleitos por maior redistribuição da riqueza, o que resulta em menos desigualdade. Claro que são sociedades mais estáveis e maduras.

O que é que pode ser feito para atenuar as desigualdades? As redistribuições que têm um efeito mais duradouro são aquelas em que se melhora o capital humano. As pessoas mais pobres não têm muita terra, não têm casa e não têm imobiliário. Têm-se a elas próprias. A educação e a saúde são factores fundamentais para a redistribuição da riqueza. Depois, há formas distintas. Há os rendimentos mínimos garantidos, que são muito controversos. Aquilo que não há dúvida é que os investimentos em capital humano são fundamentais.

Este trabalho de combate à pobreza e às desigualdades só depende do Estado, ou as pessoas podem fazer alguma coisa? Todos têm uma função. As pessoas individuais têm uma função quando votam, quando trabalham em organizações não-governamentais ou quando trabalham em instituições religiosas. Muitas empresas financiam também algumas destas acções. É normal que a função de um Estado seja assegurar a segurança e as políticas base para uma sociedade equilibrada. O papel do Estado é fundamental, mas isso não quer dizer que os indivíduos e as empresas não possam ter um papel adicional.

O Banco Mundial diz que metade da população mundial não tem acesso a cuidados de saúde essenciais. Como é que isto afecta as pessoas e reforça as situações de pobreza e desigualdade? É um problema que até os países desenvolvidos têm. A falta de acesso à saúde afecta os indivíduos, famílias, sociedades e economias inteiras. A produtividade do trabalho, se pensarmos em termos puramente técnicos, é afectada por doenças crónicas ou por comportamentos que levam a essas doenças. Tudo o que é acesso a cuidados de saúde preventivos e educação sobre saúde e nutrição é fundamental. Aquilo que vemos na nossa investigação com grande frequência é que a pobreza tem a ver com saúde. Quando há uma doença na família, onde o pai ou a mãe têm uma doença séria. Depois os filhos têm de sair da escola, as empresas onde eles estavam empregados perdem capital humano e muitas vezes lançam as pessoas na pobreza.

Também trabalham com outras organizações? Sim. Trabalhamos muito com as Nações Unidas, com os bancos de desenvolvimento regional e com o Fundo Monetário Internacional. Agora, trabalhamos cada vez mais com o sector privado e organizações não-governamentais. O sector privado porque cada vez mais tem interesse em trabalhar em desenvolvimento. Tanto em alturas de crise como em momentos de questões de fundo.

De onde é que vem este interesse do sector privado? Eles às vezes vêem soluções que os governos não vêem. Por exemplo, quando houve um terremoto na Cidade do México, o director-geral da Airbnb criou na plataforma uma forma das pessoas cujas casas tinham sido demolidas conseguirem arranjar alojamento noutras partes da cidade. E sabia o que estava em pé e o que tinha caído. São coisas que, quem tem a tecnologia e sabe o que ela pode resolver, às vezes oferece. Estas parcerias, além de serem algo com futuro, são ideias novas que tentam ajudar a resolver problemas antigos.

As mulheres ainda são mais afectadas por situações de pobreza do que os homens. O que é pode ser feito para contrariar a tendência? O que acontece muitas vezes é que, logo ao início, as mulheres vão para Letras e os homens vão para Ciência. Depois, isso vê-se nas carreiras profissionais. Outra coisa que acontece é que as mulheres são educadas de uma forma diferente. São educadas para ter menos ambição, menos auto-estima e mais vergonha. Mas isso tem mudado muito. Até cá em Portugal. Depois, há questões ao nível de política pública que são muito importantes. As mulheres que têm mais filhos, durante essa fase da carreira, ficam um bocadinho para trás. A mesma coisa quando têm pais idosos.

O que é que se pode fazer para encaminhar as mulheres para áreas mais técnicas? Nós tentamos muita coisa. Há países onde as coisas são mais simples de diagnosticar. Eu trabalhei no Paquistão, onde muito poucas raparigas iam para o liceu. Faziam a primária e depois saiam. Isto porque quando se casavam a tradição era ir para casa, não era ir trabalhar. A sociedade não valorizava a educação. Nós pusemos o governo a subsidiar a educação das raparigas pagando aos pais.

E como é que correu? Eles alinharam. Eram muito abertos de espírito. Fizemos isso até nas zonas mais tradicionais, junto ao Afeganistão. Tentámos convencer os imãs das mesquitas a dizer aos pais de família que deviam mandar as filhas para a escola, que era o dever deles. Tinham era de ser escolas só para raparigas e, além disso, recebiam um subsídio do governo.

Como é que avaliam os resultados dessas iniciativas? Utiliza-se uma zona piloto, onde se faz a intervenção e uma zona igual em todas as características. A única diferença é que não tem o projecto. Depois faz-se uma análise. É muito difícil porque ninguém quer não ser o piloto. Depois, em termos políticos é muito difícil. No Paquistão foi bem-sucedido e agora faz-se a nível nacional.

Em relação ao Médio Oriente, o que é que se pode esperar para aquela zona neste momento? Fui para lá uma semana depois de começar a revolução na Tunísia. Em termos de perspectivas, a situação na Síria é política e humanitária. Fizemos muito trabalho antes que nos vai ser útil quando tudo estabilizar. Nós sabemos qual era a base deles. O que estamos a fazer agora é dar muito apoio aos refugiados sírios que estão nos países vizinhos. Há uma população síria muito grande no Líbano, na Jordânia e alguma na Turquia. Na Jordânia e no Líbano eles pediram-nos ajuda.

Porque também acaba por sobrecarregar muito esses países? Sim. E se não apoiamos o Líbano e a Jordânia, as comunidades rejeitam os refugiados. Temos de fazer programas e nesse sentido o sector privado tem dado uma ajuda enorme, porque tem empresas lá que contratam as pessoas. A forma de resolver essa questão é tirar as pessoas dos campos, arranjar forma de essas pessoas e as comunidades de acolhimento também terem mais emprego. Melhorar sistemas de educação, saúde, electricidade e água. Colocar os miúdos nas escolas, ensinar a língua local. Depois, muitos deles vão ficar, outros tentam voltar. Por enquanto, estamos a tentar resolver uma situação muito aguda.

Quais são as áreas estratégicas para o Banco no futuro próximo? Uma é a questão da sustentabilidade ambiental. Nós falamos no longo prazo, mas isto é o longo prazo. Depois, a imigração, ligada ao envelhecimento das populações e da mão-de-obra. Depois, a questão do género. A questão do comércio internacional também. Alguns países estão a fechar-se, mas para os países mais pequenos não há alternativa sem serem abertos. O nosso é um, mas há muitos. Isso continua a ser uma área de trabalho muito grande para o Banco. A desigualdade é outra área que trabalhamos imenso.

Os portugueses emigrados sabem que querem voltar, mas não sabem quando. Também sente isso? Eu ia para fazer o doutoramento e voltar, mas acabei por ficar porque me casei com um belga que tinha dificuldade em arranjar alguma coisa em Portugal. Ambos temos raízes muito fortes na Europa. Nunca nos passou pela cabeça ficar lá. Agora venho cá muitas vezes. Ainda tenho imensos amigos cá. Para esta geração mais nova que tem estado a ir para fora, que já é uma emigração mais especializada, não há o “lá” e o “cá”. Há um “em todo o lado”. As pessoas tanto mudam de emprego em Lisboa como mudam de país e vão e voltam. Cada vez vai ser mais assim. A facilidade que temos em adaptar-nos a qualquer país, as línguas e a base técnica também são importantes. A educação é fundamental.

 

 

Por Público, Dezembro 2017

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